Por Fátima Antunes
A cada ano, tragédias no setor elétrico reforçam uma realidade preocupante: os acidentes fatais continuam a ocorrer, apesar da existência de normativas e treinamentos técnicos. Em 2023, segundo dados da Associação Brasileira de Conscientização para os Perigos da Eletricidade (ABRACOPEL), 250 mortes foram registradas no Brasil em decorrência de acidentes envolvendo a rede elétrica.
Para 2024, os números ainda não foram divulgados, mas a tendência é que, sem mudanças estruturais, os incidentes continuem a ocorrer.
O que analisar?
A questão central é: por que, mesmo com a aplicação da NR10 e treinamentos técnicos rigorosos, os acidentes persistem? A resposta está na abordagem limitada das capacitações.
A segurança no setor elétrico não pode depender apenas do cumprimento de normas técnicas; é essencial investir no treinamento cognitivo e comportamental dos profissionais. Infelizmente, fatores humanos continuam sendo negligenciados na gestão de riscos, resultando em uma preparação incompleta e na exposição desnecessária dos eletricistas a situações de alto estresse e periculosidade.
Como identificar e promover estes processos?
Com a recente alteração da NR1, que obriga todas as empresas a identificarem e promoverem processos de gestão de riscos psicossociais até maio de 2025, surge uma oportunidade única para mudança.
Essa obrigatoriedade exige que gestores não apenas reconheçam os riscos psicossociais do setor, mas também implementem soluções eficazes para mitigá-los. Nesse contexto, o treinamento comportamental e cognitivo por meio de jogos surge como uma estratégia altamente eficiente.
A neurociência e a gamificação demonstram que treinamentos interativos aumentam a retenção de informações e promovem mudanças reais no comportamento dos trabalhadores. Jogos que promovem o uso de habilidades cognitivas ajudam eletricistas a desenvolver raciocínio rápido, reduzem o impacto da carga cognitiva e melhoram a tomada de decisão sob pressão. Além disso, esses treinamentos lúdicos possibilitam a prática segura de respostas adequadas a imprevistos, minimizando o risco de erro humano.
Os riscos psicossociais que impactam a rotina dos eletricistas incluem:
- Exposição constante ao perigo;
- Sobrecarga cognitiva devido à complexidade das tarefas;
- Trabalhos externos sob condições climáticas adversas;
- Isolamento profissional;
- Variabilidade das atividades, que exigem alta adaptação;
- Exposição a ambientes insalubres;
- Falhas na comunicação entre equipes e gestão;
- Assédio e pressão por parte de clientes.
Como esses fatores são inerentes à profissão, o foco deve estar em preparar melhor os profissionais para lidar com esses desafios. Investir em treinamento cognitivo e comportamental não é um diferencial, mas uma necessidade urgente para empresas que desejam reduzir acidentes e promover um ambiente de trabalho mais seguro e saudável.
Portanto, gestores do setor elétrico precisam reconhecer que não basta apenas cumprir normativas e oferecer treinamentos técnicos. A gestão de riscos psicossociais passa, obrigatoriamente, pelo desenvolvimento de estratégias que fortaleçam as capacidades cognitivas e comportamentais dos trabalhadores. O uso de jogos e simulações deve ser incorporado aos programas de treinamento para garantir uma preparação mais eficaz, que reduza falhas humanas e aumente a segurança no trabalho.
Afinal, eletricistas bem preparados cognitivamente e emocionalmente tomam decisões mais seguras, reagem melhor a situações de risco e contribuem para um ambiente de trabalho mais produtivo e menos suscetível a acidentes. Essa é a diferença entre continuar lamentando estatísticas preocupantes ou construir um futuro mais seguro para todos.
Portanto, este é um dos trabalhos que a Associação Brasileira de Profissionais Eletricistas e Eletrônicos – ABRAPEEL atuará com ênfase já este ano.
Fátima Antunes é psicóloga, ergonomista, doutoranda em engenharia de produção, mestre em psicologia social, pós graduada neuroeducação. Especialista em gerenciamento do estresse pelo International Stress Management Association (ISMA-BR). Também é diretora da SST Games, professora universitária, autora dos jogos Papo Cabeça, Conversa Segura, Slogança e outros jogos para a área de Saúde e Segurança do Trabalho, autora do livro Estresse em Advogados e perita judicial em saúde mental do trabalhador.
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